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Cerol

Cerol

Retinas, 

Algumas vezes são as situações mais banais do dia-a-dia que nos levam a conhecer o mais profundo das ações que nos rodeiam. Digo-te isto pelo fato da história que agora inicio veio exatamente de um desses momentos do cotidiano, o que não digo é que ela seja profunda, aí cabe à tua alma...

Desculpe o início tradicional, mas realmente não sei como escrever, lá vai: Certo dia de uma noite quente, João Filho, 12, mais conhecido como Demolidor, estava inquieto em sua cama tentando dormir e a partir de sua inquietação, teve a oportunidade de notar um detalhe estranho que nunca tinha visto anteriormente: A lâmpada de seu quarto mesmo apagada ainda estava a brilhar. O brilho não era intenso, mas percebia-se que alguns fótons de luz verde ainda saiam do vidro. 

Neste dia Demolidor estava só em casa, pois seus pais tinham ido para uma pequena viagem. Ele não foi pois preferia ficar na sua região empinando sua pipa. Neste dia, João tinha ficado a tarde inteira na rua com suas linhas e correndo atrás de outras pipas pela ruas do seu bairro. Talvez esse seja o motivo de sua inquietação na cama, pois além de estar quente, ele estava com sua pele levemente queimada do sol. Pense, leitor, a soma entre a inquietação de um dia quente, a imaginação e curiosidade de um adolescente e a solidão em frente a um fato curioso em sua casa... Lembro-me bem que em minha infância essa minha inquietação fez-me ver centenas de monstros em galhos aleatórios.

Com este somatório em mente, o menino tentou consiliar o mistério com algo da realidade, mas o medo o tomou totalmente. Logo, com muito medo, ele levantou-se e viu que algumas das lâmpadas fluorescentes da sua casa também estavam a brilhar. Neste momento o pavor tomou conta de si e tomou a atitude mais inteligente para alguém de sua idade: correu para debaixo do lençol e, apesar do calor, o medo esfriou mais alto e o levou ao sono.

No dia seguinte, logo após acordar, os seus pais chegaram em casa acompanhados de seu avó paterno e o garoto correu para contar o ocorrido para sua mãe. 

— Mãe, mãe, tem algo de estranho nas lâmpadas aqui de casa!!!
— O que foi, meu filho? Para com essas doidices, sei que você só quer pegá-las para fazer cerol para suas pipas.
— Não, mãe, me escuta...
— Ó, menino sai pra lá que estou estressada
— Mas as lâmpadas ainda estão brilhando depois que a gente apaga, mãe...
— Olha, para com essas doidices ou vou ter bater, vai pra rua brincar, vai.
— Mãe, é sério... E a Dona Laura, como era conhecida, ignorou o menino, mas o seu avô estava a prestar atenção em tudo que o garoto falava e logo o chamou:

— Ei, Jão, cadê a benção do vô?
— Bença, vô?
— Deus te abençoe, meu filho, venha cá que eu quero te contar um negócio... Eu ouvi você falando essa história da lâmpada pra sua mãe e...
— Ah, vô, deixa pra lá, deve ser coisa da minha cabeça.
— Jão, venha cá! Estou lhe falando... eu sei o porquê da sua lâmpada estar brilhando no escuro, é verdade... isso é coisa de família.
— Você sabe, vô? E o que é? Ontem eu quase não morri de tanto medo com essas luzes.
— É, meu filho, isso é coisa antiga: Certo dia o meu avô, que é o seu tataravô, teve uma briga com um xamã e ele amaldiçoou nossa família e...
— O menino, inquieto cobra uma rápida explicação. Vô, fala logo que eu quero ir empinar pipa.
— Deixa de pressa, menino, a maldição que o xamã colocou foi de prender a alma das pessoas de nossa família que já morreram dentro das lâmpadas, e o brilho é elas se mexendo dentro do vidro. Meu avô também foi amaldiçoado e depois de 3 meses doente morreu, depois disso as lâmpadas começaram a brilhar, era a alma dele lá dentro tentando sair. O bruxo disse que ele consegue nos ver mas não consegue sair nem falar com a gente, e fica sempre agonizando lá dentro.
— Deixa de falar besteira pro meu filho, disse dona Laura.

O menino ficou um tempo pensativo, sobre a história que o seu avô tinha contado sobre a alma de seus parentes, mas logo saiu correndo para dentro do seu quarto. Lá, ele subiu numa cadeira e tirou a lâmpada, levando-a para fora. E pensou:

— Se eu não me importo com os vivos, quem dera com os mortos. Quebrou a lâmpada e foi preparar o cerol para passar na sua linha.

A mesma linha que o Demolidor usou o cerol, foi a que o matou. Na mesma tarde, após passar a solução do cerol na linha, ele deixou a linha esticada entre dois postes para que a cola com o vidro secasse e a linha estivesse cortante. Nesse meio tempo, ele decidiu jogar bola com alguns vizinhos que jogavam ao lado de onde ele tinha deixado a linha. Contudo, num momento em que a bola foi para a calçada, João foi correr para pegar e acabou passando o seu pescoço pelo fio que deixara secando. Por jar estar seco, o fio cortou o seu pescoço e atingiu a sua jugular. Joãozinho morreu lentamento agonizando, respirando o próprio sangue. Em suas últimas forças ele tentou forçar o corte em seu pescoço para parar o sangramento, mas a agonia logo o tomou e ele se debateu e sufocou-se até o último sangrento suspiro.

Seu avô não o contou, mas aquele que destruir a lâmpada será perseguido pela alma que nela estava contido até morrer em acidente ou ficar tão perturbado e cometer suicídio cortando os pulsos.

As almas continuam presas nas lâmpadas, mas outras estão soltas procurando as suas presas. 

-Jonatas Carlos




Carta para meu amigo

      Olá, não queria estar nesse momento escrevendo esta carta, pois eu cogitava tal situação e sabia que só estaria a escrever caso houvesse tal acontecimento que pode entrar na categoria de trágico. Como seu velho amigo, eu não queria, mas digo, bem que te avisei!
    Jonatas, você mesmo acredita que por mais estranha ou diferente que uma pessoa seja, sempre haverá alguém como ela no mundo, que a entenderá. Amigo, desculpa, mas se como tu mesmo dizes que cada pessoa é um mundo, a probabilidade de tal fato acontecer é extremamente pequena, especialmente em pessoas como você. Não quero te colocar em uma posição alta ou baixa, já você mesmo odeia tais avaliações, mas você deve perceber que você não é como a maioria das pessoas, você é simplesmente diferente. Aqui não quero inferir problemas ou qualquer coisa do gênero, mas que talvez pelos fatores que fizeram você chegar até o que pensar hoje, você tornou-se assim. Não se nasce diferente, torna-se diferente.
     Eu tinha dito! Ah, que infeliz amigo sou eu que já fala isso pela segunda vez... Mas pense, acredito que você não encontrará alguém que possa te entender e conviver com as suas minúcias e idiotices. Elas não sabem como coisas fora do lugar realmente te perturbam, como o atraso te deixa nervoso, como a má educação te incomoda... Olha só, tanto o silêncio como a fala te incomoda em determinadas ocasiões... minúcias. Coitado! Fosses mexer com uma esfinge que trabalha com o tempo. Pior, uma esfinge que não queria ser vista, revelou-se, revelaste-se-á, e ela usou o tempo. Ela não sabia como a argumentação que você usava que o amor é entrega fazia tanto sentido na sua cabeça? Assim como muitas pessoas, ela simplesmente escutava tal argumentação e via apenas que fazia sentido, mas não como tais coisas se alinham em sua cabeça, caro amigo. Sim, o amor é entrega, e ela não se entregou. Tempo!
     Tempo, amigo. Vou almoçar e já volto a te escrever. Mas agora coloco-te na posição dela para ver como era fácil, o que para mim será um tempo de um almoço e de um diálogo, para você será apenas passar para o próximo parágrafo, como se tal intervalo não existisse.
    Voltei, como te disse, apenas mudasse o parágrafo e logo tem essas novas palavras, viu como é fácil apenas observar a espera do outro? Quando um não quer, dois não brigam. Quando um espera, o outro relaxa. Mas nesse período eu estava a pensar como não consigo expressar bem aquilo que eu queria dizer pelas palavras. 
    Digo, talvez você tenha tomado como ofensivo aquelas minhas últimas palavras sobre você ser diferente, ou talvez eu te avaliei demais dizendo que uma relação com você é impossível. Bem, o que eu queria dizer é você se apega aos mínimos detalhes das coisas que poucos notam e realmente dá importância a essas coisinhas. Não quero que você mude, pois isso é o que você é, mas apenas lhe digo que não fiz por mal. Ah, você sabe! É uma parte do seu cérebro quem te escreve (como poderia se considerar normal?)...
    E também não te culpo. Até eu me apaixonei, meu amigo. Nós nos apaixonamos pela mesma pessoa, e nesse estranho caso, não fazíamos um triângulo amoroso. Mas o amor parece ser coisa complicada, principalmente quando um não ama, que é não dar-se. 
    Pois bem, meu amigo, escrevo-te esta carta pois estava pensando em te falar algumas palavras. Confesso que eu tinha muitas outras coisas a te comunicar, mas essas ideias que vem nos momentos em que paramos para pensar somem tão rápido quanto a escassez desses momentos. Desculpe-me.
 O amor é, antes de tudo, uma emoção que depende da loucura. Ame e enlouqueça. Só amará se enlouquecer. Loucura que é não se importar com o que os outros pensam de ti, voar sem asas, pular sem paraquedas, dar-se sem querer de voltar, dançar sem música, estar a sós no meio da multidão... o amor. Eu a amei, portanto, a amo.

Com vinho, café amargo e carinho, seu amigo Mitgipkvsky Saktikós.

Gup _ Cordel

Agora vou começar
Um cordel mal feito
Não por displicência
Pois dou-me por completo
E antes de me julgar
Deixe-me explicar
Que não sei é fazer direito.

E logo nesses primeiros
Se você esmiuçar
Sem colocar esforço
Vai logo é notar
Que entre essas rimas
Quase todas as palavras
Estão fora do lugar.

Desculpe, caro leitor
Não sei como começar
Assim como também não sei
O seu desenrolar
E o meu vizinho escroto
Ligou seu som maldito
Para me atrapalhar

Ah, querido leitor
Não visse o tempo passar
Apensar o verso mudou
Por não estar a esperar
Mas aqui eu estava aflito
Por nada ter escrito
Até o som deligar.

Agora sem mais delongas
Devo logo começar
Pois agora decidi
Do que eu vim falar
E é duma infeliz saída
Numa chuvosa segunda
com a menina do mar.

Já começou errado
Pois onde eu queria estar
Era no parque arruda
Mas pra me fazer esperar
Ela não quis ir
Sabendo o que iria vir
e tentando de matar...

Nada de drama aqui!
Matar, sim senhor
Pois se não morro doente
Já morro é de amor
Pois até na segunda opção
Ela também disse não
E logo logo cancelou.

No meio de tanto erro
Vejo que também errei
Pois só queria falar:
Aonde ela foi eu irei
Foi assim que "decidimos"
E numa noite de mimos
Nos teus braços fiquei.

Foi na segunda feira
Dia 5 de setembro
Que era de bica e cinema
Findou em dia macabro
Pois de recusa em recusa
Fomos pra praia com chuva
Cenas que bem me lembro:

Antes de vir a primeira
Deixe eu lhe situar
Pois nessa história
Queríamos nos encontrar
Como dois amigos estranhamos
Pois com todos os acanhos
Há é amor no ar.

Assim nessa história
Qualquer olhar conhecido
Que capture nós dois
Não sei nem como explico
É como um holofote
Ou um grito bem forte
No que estava escondido...

E tal ato aconteceu
Mas foi ainda pior
Teve pequeno diálogo
Onde tive que expor
Com pequena explicação
E recebi uma expressão...
"Acuda-me, ó Senhor!".

A segunda cena se deu
No meio da lotação
Foi besta, certeza
Mas se deu com a mão
Da jovem mais bela
Que nem pintada em tela
Mostraria tal perfeição.

Coisa de enamorada
Pois o que mesmo ficou
Foi uma besta dúvida
Que só na ideia morou
De segurar a mão dela
Da tão doce donzela
Mas o trajeto findou.

Linhas medíocres!
Que eu autor inventou
Pois falo-te logo
O que o cérebro notou
Era uma bobagem bela
Como uma cena de novela
Que o verso não passou.

Aviso-te atrasado
Meu querido leitor
Meus versos são pobres
Pois não sou escritor
Mas que pela Marinho
Esqueço-me todinho
Deixo até de ser Dr.

Voltando a história
Enfim chegamos na praia
Mas o acaso reservou
Não uma noite de sandália
E sim para cobertor
Pois do alto Deus gritou
Que todo céu agora caia.

Caia chuva ou fogo
Quereria era me molhar
'Que esse céu desabe
Pois eu não vou ligar'
Se eu ficasse onde estava
Ali até me ensopava
Mas com a menina do mar.

Mas dia de contrariação
É duro como rapadura
E se esfarela todo
E até sua doçura
Vira café sem açúcar
Que vem para amargurar
Toda e qualquer criatura.

Caia chuva ou fogo
Eu queria era ficar
A noite toda abraçado
Com a rainha do esperar
Mas se o tempo foi contra
O que tive foi uma amostra
Grátis pra logo aproveitar.

Ah! Que noite maluca
Pois foi toda ela assim
Um corre corre da chuva
Mas com ela outrossim
Correria o tempo todo
Se fôssemos lado a lado
Juntinhos até o fim.

Não sei se é de cordel
O que quero contar
Mas vai assim mesmo
Pois onde eu queria estar
Ela ali abraçadinho
Com a menina Marinho
Até o mar secar.

Mas então, como seria
Viver naquele barraco
No meio daquela praia?
Fico em qualquer buraco
Se estiveres ao meu lado
Com teu amor bem guardado
Moro em qualquer pedaço,

Pois a minha cabeça
Funciona como uma vitrola
Que onde quer que eu esteja
Toca aqui toda hora
Seja no verso
Ou no reveso
Sempre uma tal de Carola.

Sim, queria mocinha
Estou indo amar-te
E carrego meu coração
Assim sempre vou levar-te
Não importa o que vou fazer
Seja onde eu estiver
Até no meio de marte.

Tenho que voltar a praia...
Pois os beijos que nela dei
Sempre passa no vinil
Acredite, pois os contei
Sobre a pele de veludo
Calculei eles ao todo
E deu: Um eu te amei.

Mas o acaso danado
Logo tudo transformou
Pois não é que ele
Com quase tudo acabou
Já que isso era escondido
Um caso meio encardido
E aos meus pais quase mostrou.

Melhor, decerto viram
Já que ficaram calados
Quando eles passaram
Meio que acanhados
Pior que nós não estavam
Mas as horas já passaram
E eles continuam mudos...

Dia 5.7 de 2016
Dia que cordel virou
Portanto, agora eterno
Mas já bem feliz estou
Pois como num sonho
Foi com a Marinho
Que meu dia findou.


Por Jonatas Carlos

Déficit de visão

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Olá, olho que me lê, desculpe pelo texto que agora estará sendo jogado e a pressa com que venho a jogá-lo, mas preciso escrever esse pequeno detalhe da vida cotidiana antes que eu vá dormir e esqueça.

 O fato aconteceu no ônibus quando eu voltava hoje do meu curso de inglês, o ônibus não estava lotado mas tinha algumas pessoas de pé (inclusive eu), contudo, logo apareceu um lugar para que eu pudesse sentar logo em frente de onde eu estava. Assim, olhei para os lados para ver se tinha algum idoso ou senhoras ao meu lado para que eu cedesse o lugar, e tinha. Moça, você quer sentar?

  A mulher, olho, era um senhora com seus 45 anos que estava de pé em frente ao banco que estava ao lado do banco que eu estava. A resposta dela foi um simples não. Um simples e calmo não. Querido olho, vês como as palavras em muitas vezes conseguem emitir o que realmente queremos falar? Principalmente quando quem está escrevendo-as é um horrendo escritor como eu. Pois o que realmente me chamou atenção - e é o que vim lhe falar aqui - é que a mulher tinha uma deficiência nos olhos...

 Uma deficiência, mas talvez não um defeito. Confesso que de princípio tomei um pequeno susto... susto não, entre um susto e algo que me chamou muito a atenção: Um dos olhos da mulher era arregalado (que palavra feia), ele não era exatamente estufado, mas parecia observar tudo o que se passava ao redor da mulher em 180º, ele era grande. Pior, tal senhora gostava ou tinha por mania o hábito de olhar para todos os cantos, ela estava sempre mudando a mira dos seus olhares, sempre passando por mim (que quase a encarava por uma questão de instinto curioso). Talvez esse fosse o tamanho normal do olho dela, que poderia se dar pelo contraste com o outro olho: Este era cerrado. Desculpe a comparação, mas como quando aqueles atores dos filmes do velho oeste fitavam o inimigo. Ele ainda apresentava os aspectos de grandeza (gigantística grandeza) do outro olho, mas agora cerrado.

 Uma deficiência, mas não um defeito. Um olho era de total atenção e o outro era de total suspeita.

 Tenho que dizer-te, olho que me lê, que fiquei um pouco agoniado olhando para aquela mulher. O simples não que ela me deu me obrigou a encará-la por um bom trajeto da viagem do coletivo. Minto, encaixe o último fato que acabei de falar com a minha curiosidade, não parei de encará-la.

 Assim, surgiu-me algumas reflexões, algumas já esqueci (motivo pelo qual escrevo este texto antes de ir dormir, mesmo estando muito cansado, para não esquecer ainda mais), mas lembro-me que pensei no fato de a mulher ser gorda, digo, de uma forma educada, um pouco cheia. A partir disso fiquei pensando se ela comeria muito com o olho que tudo vê ou com o olho que espreita. Cheguei a conclusão que o olho que tudo vê pouco desconfia, enquanto o outro olho parecia gritar desconfiança. Assim, decerto ela comia muito com o olho atencioso.

 Olho que me lê, saibas que escolhi esse destinatário para isso que agora escrevo de forma aleatória, foi o que me veio a mente, nem pensava na mulher. Mas o meu subconsciente deve ter ligado as coisas de alguma forma e me fez escrever-te.

Desculpe-me, escrevi várias coisas sobre a mulher e os seus defeituosos olhos e cheguei apenas no fato de que ela era gorda com o olho grande (desculpe, de novo, este trocadilho, não foi intencional, maldito subconsciente, ele que nos dão essas ideias). Mas digo que também pensei em várias especialidades que essa mulher poderia ter. Por exemplo, se ela fitasse um mesmo objeto, ela tanto o veria holisticamente, ou pelo menos mais do que nós, como o veria de forma suspeita, qualidade digna, tudo vê e suspeita o que vê.

Ah, mas aqueles olhos, quando eles passavam por mim me causavam uma agonia, ela tanto me olhava quanto desconfiava. Ela olhava para frente e estava desconfiando de tudo com aquele olho apertado. Confesso que tive outros pensamentos que beiraram as besteiras filosóficas, mas não sei como descrevê-las e nem as quero, pelo cansaço; além das quais eu já me esqueci.

Olho, querido olho que me lê, fico pensando agora qual entre aqueles dois olhos eu carrego comigo. Será um meio termo entre os dois? Qual seria o melhor para mim? E tu, olho? Qual olho que tu és, que tudo observa, ou o que tudo suspeita? Queres mudar?

Eu quero, quero ser mais suspeito. Quero ter uma deficiência mas não ter um defeito. Só não quero ter esse déficit de visão que todos os outros do ônibus e a maioria do mundo parecem ter.

Os recursos naturais que uso para descrevê-la estão se acabando, chama o cupido

Os recursos naturais que uso para descrevê-la estão se acabando, chama o cupido

Quão incrível natureza
De Deus bela feitura
Agora esconde a tristeza
No meio de tanta fartura...
Pois o que era pra ser vivida
É tão somente observada
E consumida pela espera.

É um amor escrito
Por um consumo linear
Num sistema finito...
E se eu não te alcançar
Com tais recursos escassos?
Será que com esses passos
Poderia o amor aguardar?

Sistema que não é ciclo!
Com perguntas sem respostas...
Pois coloquei em todo ambiente
Com essas linhas tortas
Em ti meu pensamento
Que agora fica ao alento...
Mas o amor tudo suporta!

Versos forçados
Pois sou surdo e mudo
Não sei escrever
E agora neste mundo
Nesse cinema sem falas
Sempre desencontras
Aquela pele de veludo.

Voltando a escassez...
O que falta utilizar?
Já que humano é bicho burro
Pois sabendo que vai findar
Ama e não recicla
Quer e não re(utiliza)
Até um dia acabar...

Ah, nuvem querida,
Preciso me desculpar
Pois o terceiro 'R'
Não vou utilizar
Reduzir? Nem pensar!
Pois eu vou lhe esperar
Até a água findar
E até a última gota
Do oceano secar.

Me perdoem, ambientalistas,
Mas esses recursos serão
Em versos esgotados
Pois com tanta paixão
Continuarei a d(escrevê-la)
Que é presenteá-la
Até o mar virar sertão.


-Jonatas Carlos, 03.09.2016









Saudades

Saudades

Agora que você se foi
Digo que sinto saudade
Pois enquanto ao meu lado
Eu nada sentia
Só não sei se é tarde...
Fui no dicionário de inglês
E ele disse que só em português
Que eu sentiria essa falta
Quando você se fosse...

Mas se quiser voltar
Essa toda saudade
Vai estar aqui guardada
E sentirei sua falta
Mesmo aqui ao meu lado...
E te amarei
Como te amo
Quando estou com saudades.

-Jonatas Carlos, 17.09.2016

Golpe

O golpe dos miseráveis é a existência. O golpe dos 'sucedidos' é não os ver.

Soli Deo Gloria

Soli Deo Gloria

Quão vão é o entendimento
Daqueles que buscam no pensamento
E em toda sorte de matéria
Tudo que essa miséria
Guarda as escondidas...
Pois como serão sofridas
Toda a limitação
Que eles encontrarão
Quando por fim entenderem
Que por mais que buscarem
Sempre no fim enxergarão
O que eles mesmo não verão
É o início de tudo
É também parte do todo...
Mas eles dirão que é limite
Nada! Apenas transcendente...
E tudo que agora vemos
É uma parte de seus termos
De toda plenitude
Verdadeira infinitude
E que em mérito dizem: Meus
Digo glória somente a Deus.

-Jonatas Carlos

Confesso

Confesso

Meu robô organizou
Todo o ano planejou
Ah, meses perfeitos!
Pois ele metodizou
Não o que vem do peito
Mas o que vem da mente:
Aprendizado reluzente.

Confesso que falhei
Do caminho desviei
Mas quem dera
Se eu sempre errasse assim
Pois aqui eu encontrei
O que realmente vem de mim
E o que antes guardara
Agora eu gritei.

Ninguém ouviu!

Confesso que não sei
Pois isso não planejei
Mas agora quando acordo
Não sei se vivi ou sonhei
Pois é num cinema mudo
Que gritei pra todo mundo
Que eu me apaixonei.

Ninguém ouviu!

Mas foi detrás da produção
Sem nenhuma encenação
Que eu cego fiquei
Cego e mudo, pensei
Pois toda a luz que eu tinha
Era da lua que vinha
Mas um muro agora a detinha.

Confesso que não sei
O caminho que prossigo
Mas se é para ver a lua
Continuarei caindo
Até o anjo aparecer.

-

Como posso gritar em um cinema mudo?
Como podem me entender se não sei atuar?
Quantos fios existem para me derrubar mesmo sem nada eu ver?
Mas quero continuar até atingir o mar e o luar;
Quero ver a lua nascer
Pois é nesse encontro no horizonte
Que vejo matemática pura
É onde os infinitos se tocam
E a lua e o mar se abraçam.

-Jonatas Carlos, 20.08.2016

Discursos Fúnebres

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Deito-me sobre esta tarde ociosa para escrever Discursos Fúnebres

(i) Meu próprio discurso fúnebre

   Confesso que estou receoso por escrever o meu próprio discurso fúnebre e não tenho a mínima ideia das palavras que eu realmente aqui escreveria caso isso fosse de acordo com a realidade. Talvez seja. Mas trago aqui uma certeza: morto não fala, portanto, tenho aqui a oportunidade de dar voz a um defunto.

   A primeira coisa que eu gostaria de falar... é que eu realmente não tenho alguma primeira e nem última coisa a falar, mas irei jogando ao longo das próximas linhas as ideias mais aleatórias que eu possivelmente falaria em meu próprio funeral. Assim, mesmo estando eu em vida e não estando em um funeral, chego próximo aos discursos que são pronunciados nesses ambientes, pois os mesmos não são tão pensados, tendo em vista a carga emocional. Neste caso é a falta de carga emocional que também me dá a liberdade de escrever aleatoriamente.

  A primeira coisa é que eu não sei a idade em que eu morri, portanto escrevo aqui as palavras como se eu tivesse morrido agora, com os meus 20 anos. Dessa forma, ao contrário das somente boas palavras que as pessoas falariam para os meus parentes ou que estes falaram de mim, deixo-me para falar com a alma e falar a realidade, que nem sempre é boa.

  Assim, digo que foram 20 anos de uma infelicidade e de mal aproveitamento sem tamanho. Se meu corpo fosse uma máquina, decerto estaria longe do ideal de Carnot pois o meu rendimento estaria próximo do 0. Não digo que foi infeliz por falta de recursos ou opções para tal, isso é, se isso realmente é alcançável. Mas falo exatamente por esse mal aproveitamento como um todo.

 Acredito que minha infância foi uma das partes da minha vida em que foi mais 'normal', ia normalmente a escola, tinha alguns amigos, jogava futebol, gostava de ler, jogava vídeo-game e  aquilo que mais tarde acabou desenvolvendo a maior parte da minha personalidade, a solidão, que de princípio me dava uma criatividade de criar um mundo subversivo dentro da minha mente que me dava acesso a um mundo que só eu conheci com todas as formações políticas e empresariais. Digo isso pois, mesmo tendo alguns amigos, passei boa parte da infância só e tinha que criar universos.

  Nessa época eu tinha um empresa, um time de futebol, era jogador profissional e até mesmo anotava em um velho caderno os próximos confrontos e como estavam indo as minhas despesas.

  Não posso culpar ninguém, mas acredito que essa minha característica foi ainda mais desenvolvida pelo cuidado talvez excessivo dessa que deve estar chorando agora ao lado de meu caixão, minha mãe. É claro, com o objetivo de me proteger. Penso agora que essas palavras poderiam soar fortes aos seus ouvidos, mas deixo aqui que eu realmente entendo e não falo do desenvolvimento de minha personalidade introvertida ou da minha amizade com a solidão como um real problema. Talvez não seria eu um bom defunto que estaria escrevendo essas palavras agora se não fosse o seu cuidado. Cuidado esse que me comprometo aqui em cumprir no futuro caso não seja necessário ler tal discurso em tempos próximos, mas deixo aqui escrito pois essas palavras provavelmente me deitarão em rios de lágrimas em uma leitura pessoal futura.

  A nostalgia é uma coisa bela, mesmo as más memórias. Pois a nostalgia nos liga ao amor às coisas futuras, dando a essas agora um dever de serem aproveitadas. Ainda mais vindo em um discurso fúnebre, pois não há nada como o assunto morte que nos faça querer viver.

  Aqui dou um salto e coloco dentro de um único pacote o final da minha infância até o final da minha adolescência. Pois foi aqui que conheci aquilo que veio para unir o mundo e as pessoas como nunca antes se viu. Mas também aprendi na juventude que isso que conheci foi o que também mais separou este mesmo mundo e as pessoas, tirando um pouco de gente do pouco que já restava em alguns humanos. Talvez nesse tempo eu tenha sofrido a minha maior morte.

 Foi aí onde perdi horas, dias, semanas, meses, anos, vivendo uma vida que não existe. Rindo do que não deveria ser engraçado. Lotando minha cabeça de coisas inúteis que de nada servem. Pois é nesse local que há tudo menos o espelho da alma, pois lá só tem outros, outros e mais outros. É assim que se torna zumbi errante ainda em vida, é o torso virado para o quase nada aproveitável, e o que há de ser, seria bem mais conhecido fora deste mundo. 

  As drogas não são senão um meio do alívio da dor que o mundo nos causa. Algumas feridas são físicas, e para essas, drogas quando moderadas parecem ser benéficas. Outras feridas são internas, as drogas para essas parecem viciar mais e dificilmente são benéficas. Mas a maior doença é o vazio da alma que está sendo preenchida com uma viciante droga errada, que não é considerada droga, talvez seja o álcool, o cigarro, ou o outro, não sei. Dizem que o último não faz mal, mas digo, faz! Essa do outro não é altruísmo.

 Agora estou no começo da idade que se chama de jovem. É aqui onde as pressões sociais de uma sociedade normal começam a se aflorar, mas confesso que não estou preocupado com isso, e morreria feliz assim. Mas sei que só não estou preocupado pois não estou no ambiente que me colocaria na situação em que tal pressão fosse um problema. Não sei até que ponto o passado construiu esse futuro, mas vejo que foi quase tudo.

 Ah, é claro! Como sempre achamos que estamos certos no presente e vemos vários erros no passado, isso aqui também se apresenta. Melhor, acredito que já expus um pouco das minhas certezas de agora nos últimos parágrafos. Assim, vejo hoje como o meio termo sendo algo agradável, pois é nesse meio que nós temos uma calma para pensar e analisar os dois lados, pendendo para um dos, quando necessário e parecer certo. Foi assim que cheguei nessas últimas certezas aqui pronunciadas, definitivamente últimas pois cá agora devo estar morto. Mas no almoço de hoje pensei: será que o meio termo entre o azedo e o doce é o aguado? 

 Morto! Estou agora morto! Para que serviu todas essas coisas que busquei aprender e entender, colocar tudo na cabeça e... morto! Talvez aqui desse lado da vida, o de sua ausência, todas as coisas terrenas parecem não ter importância alguma. No meu caso, foi essa que acabei de falar. Perdi (?) a vida buscando entender as coisas? Imagine se nem isso eu tivesse feito!? Como eu disse, o passado escreveu o meu presente e foi esse passado que me trouxe aqui. E dada as circunstâncias de agora onde cá escrevo, digo que estou satisfeito, e mesmo que eu tenha perdido muita coisa, cozinhado os miolos sem necessidade, se cá estou, aqui deveria estar. Não posso supor a diferença que agora seria se o meu passado tivesse escrito outra coisa, pois se assim fosse, lá estaria. Mas é óbvio que ainda assim podemos aprender com o passado para melhor fazer o futuro, até que esse se torne um passado e nos leve para a mesma reflexão em outro futuro. Portanto, o que seria o humano se nós não pensássemos? Meio-termo. 

 Sobre o meu funeral eu tenho algumas considerações. (i). Espero que o meu corpo não inteiro esteja presente neste recinto, pois eu disse em vida que queria doar os meus órgãos e doar o que 'sobrar' para a pesquisa; (ii). Se (i) não foi cumprido, pare este funeral e doe agora para a pesquisa (já que os órgãos já não podem ser salvos); (iii) Sei que é complicado, mas não queria ter um funeral triste, portanto, gostaria que tocassem musicas interessantes, como músicas de Rodox, Rodolfo Abrantes, Crombie... minha memória de morto já não está muito boa, mas sintam-se a vontade para tocar todas as músicas que tem em meu notebook. Não ligo para o que os outros vão pensar, nunca mais os verei. 

  Acredito que eu tinha mais alguns comentários para fazer aqui para vocês, meus queridos vivos ouvintes, mas seria em um tom um tanto quanto instrutivo, e acredito que eu não queira isso em meu funeral. (Leia-se preguiça de escrever)

  Mas você que agora escutou esse meu discurso fúnebre pensa que nesse corpo tinha um ser bem estruturado e de cabeça que só olha para as estrelas, saibas, nesses meus vinte anos tinha somente um espinho que queria virar flor. E esse espinho chorava para tentar regar a si mesmo.

 Sim, não tive uma das melhores e mais aproveitadas vidas, sim, talvez tive uma vida de poucos amigos, mas um entre eles me fez encarar a morte com naturalidade e até certa ansiedade para vê-la. Este que não está sustentado por livros de filosofia, ciências, ou materialidade, mas as sustenta. É dele minha vida e esta morte que agora vocês veem é tão somente o início de uma verdadeira vida. Por que choraria ou teria medo disso? Por mais só que estive, sempre estive com alguém, por mais triste que estive, sempre estive feliz, por mais cruel e sofrida a morte que tive, morri em paz, pois a tão procurada felicidade não é encontrada em terra, mas do alto e se chama Deus.

(ii) Discurso fúnebre de Carolaine Marinho

  Confesso que não sei como iniciar este discurso, nem mesmo sei se deveria estar escrevendo tal coisa, mas a falta de uma realização de tal pedido que fiz deu-me aqui a ideia de escrever este. Pode parecer estranho que eu esteja aqui falando alguma coisa sobre ela, mas tive a oportunidade de conhecê-la durante alguns meses que antecederam tal tragédia.

 Ela foi a pessoa que me não escreveu o meu discurso fúnebre. E como eu disse, com a ideia de escrever este com ela ainda em vida, perguntei-lhe o que ela "queria ouvir" em seu funeral...

 Acredito que ela tenha me dito três coisas, mas enquanto escrevo estas linhas só lembro de um: Penso que ela queria que eu vos soubesse fazer a ideia que ela tinha de morte. Dessa forma, deixo aqui um entre os pensamentos que ela desenhava: A morte para ela era algo mais confortável do que pode parecer para muito de nós, pois ela tinha a visão de que a morte era tão somente o começo de uma vida eterna, que acredito que seja no céu (não falaria isso), a morte para ela era uma simples passagem desse mundo material para um mundo que ainda desconheço mas que deve ser incrível. Ela não temia a morte, mas a encarava com um passo natural da vida, o fim da vida, mas não o seu término. Sei que esse momento onde estamos prestes a ter que dar um adeus ao seu corpo material é algo difícil, mas acredito que seja menos agoniante após sabermos essa ideia dela. Ou não, nesse momento não tem palavras que possam confortar nossos corações.

 Penso que ela também me disse que não queria um velório muito triste, mas disse que isso era impossível com palavras parecidas com as últimas que terminei o último parágrafo. Mas este último não sei se realmente foi um pedido ou algo que meu cérebro inventou enquanto eu tentava lembrar dos outros. Minto, perguntei para ela no passado de agora ainda em vida e ela disse que era para eu falar apenas sobre a morte... Disse.

 Qualquer confissão que eu aqui fizesse sobre ela seria estranho, pois como já disse, apesar de termos gastado alguns minutos em prosa, vocês não sabiam sobre isso. Assim, deixo aqui as palavras clichês, mas nesse caso não menos verdadeiras. Ela era uma pessoa incrível, eu sigo uma linha de pensamento em que sei que todas as pessoas são diferentes, cada cabeça é um mundo, mas a maioria desses mundos são como estrelas vistas daqui, pois vistas de longe são bem parecidas. Não ela. Ela tinha um jardim florido em si, não pintava com as mãos, mas desenhava com seu olhar distraído. Estava sempre em terra, mas voava como um colorido balão através do seu pensamento. Se os antigos gregos, que tinham a mania de transformar em estrelas em constelações os falecidos ou os mitos, estivessem aqui, eles teriam um sério problema para decifrar, pois essa menina esfinge era em si mesmo um universo.

 Como o último pedido dela: Aproveitem o cafezinho e peguem os desenhos que o passado dela deixou, aqueles bem rabiscados, chamados de malcriados

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